31 de ago de 2009

Contra a falsa sinceridade.

Não desejo que seja sincera. Você pode mentir. Você pode inventar. Você pode deixar de dizer. Não ficarei magoado. Nunca ouvi coisa boa quando alguém foi sincero comigo. Nunca ouvi uma declaração de amor. Uma declaração de fé. Uma declaração de confiança. Com a sinceridade, suportei despedidas, críticas e desaforos. Fui demitido ou avisado do fim do namoro. Não fui promovido, abençoado. Não me ressuscitaram com a sinceridade. Não recebi pedido de casamento. Não me salvaram com a sinceridade. Não me resgataram com a sinceridade. Não tiveram pena, compaixão, compreensão com a sinceridade. Ser sincero é uma condição que traz unicamente cobrança, ajuste, saldo.

"Posso ser sincera?" é sinônimo de "agüente sem gritar". Expressa arrogância. Sou contra a catarse de falar para ocupar espaço. Falar para exorcizar, para esvaziar a consciência. Dane-se a consciência! Não me alivia falar. Não me alivia jogar para fora. Demoro-me porque pretendo jogar dentro. Criar raízes nos seios.

Ser sincero é afastar, repelir, é maldade comportada. Prefiro um ódio selvagem a um ódio civilizado. Um ódio civilizado é rancor. É recalque. Recuso o rancor. Recuso o que finge espontaneidade.

Essa franqueza não ensina, machuca. Essa franqueza debocha. Tiraniza. Não seja sincera comigo. Não me faça sofrer em nome da honestidade. A honestidade nada tem a ver com isso.

Que me engane com promessas. Que me prometa o que não fará. Que me prometa mesmo que não confie. Que me prometa como forma de começar a confiar.

Guarde um pouco de você para depois. Deixe adivinhar. Não me conte tudo. Deixe pressentir. Não me conte tudo.

Não estou exigindo que fale mal de mim pelas costas, mas que também não seja de frente. Que tal de lado?

Falar o que se pensa não é falar o que se deseja. Não quero saber de transparência na relação, nem a verdade é transparente. Não conheço ninguém que tenha sido franco para proteger, para cuidar, para acariciar. Desde quando se pede licença para bater? Não dou licença, não permito a sinceridade que seja violência, tiro os óculos apenas para beijar.

Não me diga o que pensa. Em sua sinceridade, não encontrarei opiniões agradáveis. O que vem à cabeça não é a cabeça. Não seja sincera comigo. Pode ser sincera consigo, com os outros, com os pais, com os amigos, comigo não. Não pedi sinceridade, pedi amor. O amor não está nem aí para o que acreditamos e deixamos de acreditar. Ele acontece apesar de nós.



(Fabrício Carpinejar)

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