23 de out de 2009

Multidão

Há suficiente traição, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para abastecer qualquer exército a qualquer momento.
E os melhores assassinos são aqueles que pregam contra o assassinato.
E os melhores no ódio são aqueles que pregam amor.
E os melhores na guerra enfim, são aqueles que pregam paz.

Aqueles que pregam Deus precisam de Deus.
Aqueles que pregam paz não têm paz.
Aqueles que pregam amor não tem amor.
Cuidado com os pregadores.
Cuidado com os conhecedores.

Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros.
Cuidado com aqueles que ou detestam a pobreza ou orgulham-se dela.
Cuidado com aqueles rápidos em elogiar, pois eles precisam de louvor em retorno.
Cuidado com aqueles rápidos em censurar, eles temem o que desconhecem.
Cuidado com aqueles que procuram constantemente multidões; eles não são NADA sozinhos.
Cuidado com o homem vulgar.
A mulher vulgar.
Cuidado com o amor deles.

Seu amor é vulgar, busca vulgaridade.
Mas há força em seu ódio, há força suficiente em seu ódio para matá-lo, para matar qualquer um.
Não esperando solidão.
Não entendendo solidão.
Eles tentarão destruir qualquer coisa que difira deles mesmos.
Não sendo capazes de criar arte.
Eles não entenderão a arte.
Considerarão seu próprio fracasso como criadores apenas como falha do mundo.
Não sendo capazes de amar plenamente.
Eles acreditarão que seu amor é incompleto.
Então te odiarão.

E seu ódio será perfeito.
Como um diamante brilhante.
Como uma faca.
Como uma montanha.
Como um tigre.
Como cicuta.
Sua mais refinada ARTE.



(Charles Bukowski)

15 de out de 2009

Senha com seu nome

Acabamos na noite de sábado. De manhã, o computador pergunta se desejo trocar a senha com seu nome. Faltam 12 dias para expirar. Cheira implicância. Daqui a doze dias, é meu aniversário. Não estará presente, pelo jeito... Sem surpresas. Sem jantar. Sem os aplausos das velas. Sem aquela vontade de atravessar a idade de mãos dadas.

Tenho que controlar o coitadismo. Não há vítima na briga, há dois agressores. Sou um deles. As pedras no bolso são versáteis, servem tanto para o suicídio como para o homicídio.

Nenhum dos dois quis mudar. Mudar era visto como piorar, infelizmente. Nos amamos o suficiente para morrer, não o suficiente para nascer de novo.

Não vou telefonar, não vou mandar torpedo, apesar da vontade imensa de reatar. O orgulho assumiu meu quarto. Conversa com ele agora. Com essa governanta das minhas desvalias, do meu guarda-roupa e sapatos. Estou de castigo, protegido, ausente, impedido de responder por mim. Se fosse responder, avisaria que dependo de você, que a desejo de volta. Infelizmente sou capacho de minha angústia. Piso em minhas palavras para limpar os pés da chuva.

O desamor é treino. Não existe desamor. Existe ensaio, simulação da indiferença, controle absurdo do cumprimento. Não que não sinta nada por você, sinto absolutamente tudo mais do que nunca e não consigo comunicar. Os cotovelos latejam, a cabeça bóia, as pernas mergulham numa fraqueza de maratona.

É esquisito ser ex. O corpo não aceita participar da greve de fome. No dia seguinte, sou ex. Acordei ex. Pronto. Na noite anterior, era a pessoa mais importante. Agora virei um estranho, um engano. É excessivamente cruel. Largar uma história em comum sem nenhuma desintoxicação, tratamento, cuidado. Sem nenhuma ante-sala para chorar, berrar, espernear, expiar a febre. É muito mais grave do que um vício.

Quando você ardia alguma angústia, dizia que logo passava.

Não passará logo. Fingirei. Fingirei que me darei melhor sozinho. É uma estrondosa mentira que também acreditará porque não tem escolha. Sou uma mesa para dois, serei sempre uma mesa para dois. Levarei minhas malas para ocupar a cadeira ao lado. Enfrentarei os questionamentos: "onde você anda?": nos lugares em que frequentávamos juntos. Explicarei que brigamos, escutarei dos amigos que é normal e que logo faremos as pazes, comentarei que é definitivo por educação e para não sofrer mais.

O ex mente, integralmente mente, complicado porque você me ensinou a gostar da verdade. Não tivemos filhos, não tivemos uma casa para dividir a partilha, não tivemos um cachorro para se procurar novamente. Não projetamos pretextos para a reconciliação, como esquecemos disso? Nosso amor não tem endereço como um circo, montado e desmontado na estrada.

Resisto a trocar a senha, aceito as migalhas da casualidade, não estou pronto, ninguém está pronto para se separar. O computador é mais caridoso do que a gente. Coloca prazos. O prazo é uma esperança disfarçada de adiamento.

Como dói o que não começou a doer. Não preciso de férias, preciso de outra vida.




(Fabrício Carpinejar)

Dentro de Mim

"Hoje de manhã eu acordei e fiquei olhando para tudo catatônica, um misto de susto com deslumbramento. Me dei conta de que essa é a pior e a melhor fase da minha vida. Eu nunca andei tão triste e nem tão feliz. Foi difícil enterrar tantos mortos e tantas rotinas, mas está sendo muito fácil viver dentro de mim."

(Tati Bernardi)

8 de out de 2009

Melhor Remédio

Dizer aos outros que o tempo é o remédio para os amores impossíveis parece fácil. Assim como dizer que broto de goiaba fervido ajuda na dor de barriga. Esses dois são conselhos de minha avó, e que com certeza já sabia o que dizia em tempos remotos. O triste é fazer criança tomar o chá amargo do broto de goiaba e um ser apaixonado entender que o tempo lhe trará a resposta para o amor. Parece fácil, mas só eu sei e posso dar testemunho de que as duas coisas são verdadeiras. O chá amargo de minha avó realmente funciona com a dor de barriga e o tempo traz a calma para o amor impossível. Já experimentei os dois... O chá foi mais fácil de tomar, pois passei a velhinha pra traz, e assim que ela virou as costas adicionei açúcar. Já o tempo não... Tive de engolir dia a dia, como gotas amargas de fel. Sofrer cada dia, descer cada degrau da escada da ilusão sozinha... Provar do amargo, sem direito a acrescentar açúcar quando as pessoas viravam as costas. Os amigos tentaram ajudar, mas infelizmente em se tratando de amor, temos de caminhar sozinhos. Seguirmos á sós o caminho do regresso que outrora pisamos acompanhados. Mas hoje, eu posso afirmar com a maior certeza do mundo: O tempo pode não curar um grande amor, mas com certeza pode amenizar a dor de termos visto-o partir; ou então nos dará a chance de vivermos este amor novamente, porém mais maduros, um amor sólido, sem as euforias da adolescência e as dúvidas da juventude. Embora o amor seja constituído de dúvidas, pois amar é se entregar sem nenhuma garantia. Ou então o tempo nos dá a chance de consertar um coração quebrado, e ajeitá-lo para viver um novo amor.Sei que é difícil se acreditar nestas possibilidades quando o coração está estraçalhado, em frangalhos, por um grande amor. Mas acredite... Somente o tempo dirá o valor que esse amor tinha e se realmente ele era o grande amor da sua vida. Por enquanto o melhor a se fazer é tomar o chá amargo do tempo e esperar que ele faça efeito sobre as dores da alma. Infelizmente ainda não tem remédio em farmácia melhor pra dor de barriga que broto de goiaba e para os amores impossíveis que o tempo...Eu sei do que estou falando... Pode acreditar!(Maria Rita Avelar)

Teu abraço

O primeiro sintoma foi o abraço. Acredito que você não sabe, mas é nesses pequenos instantes que construo minhas teorias. O teu abraço tem algo mágico/intenso. É um abraço que diz, em um tom silencioso, aqui-é-o-teu-descanso. E hoje, ao te abraçar, diferente dos abraços de simples encontros casuais recheados de um "oi, tudo bem?" rápido e sem graça, pude entender a dimensão dos teus ombros, a necessidade que tu tinhas em me confortar com tua alma vestida de corpo. Pude perder a noção do tempo nos teus braços, sentindo os teus sem hora para acabar. Sempre que me perguntam o grande porquê me vejo irremediavelmente encantada por ti, repito: o abraço. Desde aquela noite que já queria ser dia, o teus braços me entrelaçaram sem motivo fixo ou pretensão segunda, e ali me rendi a toda a tua dança livre e a tua energia que jorrava por todos os poros teus. Energia, a melhor que se pode imaginar. Algumas pessoas cruzaram a minha vida de maneira inesperada e criaram raízes lindas, sólidas e fantásticas. Você é uma das pessoas. A mais fantastica delas! Quero ter você ao meu lado, me abraçando para eu ter a certeza da sua dança improvisada, das suas idéias mirabolantes e a tua arte de ser pulsante, por aqui e por onde os teus pés descalços te levem.
Teu abraço me encanta.
É isso!
(Juliana Miranda)
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